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“Direção sem álcool: perdas e ganhos”
A recente medida adotada pelo governo, que limita a direção de um automóvel à “quase” ausência de álcool no organismo, vem causando polêmica. Os discursos, entre outras coisas, criticam o rigor da lei ou apontam para um suposto oportunismo do poder público que se beneficiaria com o dinheiro que virá das pesadas multas. Rigidez ou não, propomos uma pausa para reflexão.
Nos dias de hoje, o número de pessoas que morrem em função de acidentes de trânsito no Brasil é assustador, comparável aos números de algumas guerras pelo mundo afora. Em aproximadamente metade dos acidentes, os motoristas estão comprovadamente alcoolizados. O que sugere este cenário? Que aspecto é esse do humano, tão autodestrutivo? Curiosamente, o que se tem visto e ouvido na mídia e nas conversas cotidianas, não aponta para esta questão. Os reclames são a favor do prazer e da suposta liberdade de cada um de ir e vir, do modo que bem entender, sem necessariamente se implicar num contexto de coletividade.
O ser humano é atravessado por impulsos. Ao satisfazê-los, obtemos um prazer. A busca de um prazer ininterrupto pode acarretar, porém, reais prejuízos em relação à nossa integridade e ao lugar que ocupamos no convívio com os outros. Nesta perspectiva, podemos pensar que a destrutividade é própria do humano e, para nos cuidarmos e cuidarmos do meio onde vivemos, somos impelidos, pela sociedade e pela cultura, a pensar e ponderar e até abdicar de alguns prazeres em função do coletivo. As regras e leis estão aí para isto, desde as mais cotidianas como não xingar e respeitar o próximo, até as mais contundentes que nos acompanham desde a antiguidade como não roubar, não bater, não matar e até não fazer sexo em praça pública, mesmo que sintamos vontade. Dependendo do contexto, podemos nos ver em “maus lençóis”, envergonhados, comprometidos e punidos por darmos cabo de alguns destes impulsos.
O individualismo impera no mundo contemporâneo, basta lermos o jornal para nos darmos conta disto. Em recente matéria da Folha de São Paulo do dia 29/06/2008, a manchete aponta: “Para paulistanos, lei seca é boa para outros”. Na matéria destacam-se algumas falas e descrições de pessoas que bebem e dirigem: “bebo há 35 anos e nunca sofri acidente”, “...bebeu 8 copos de cerveja, 3 de vinho, 2 de cachaça e disse: mas eu moro a menos de 2 km daqui...”. Como é difícil abrir mão do prazer individual por uma preocupação e cuidado com o coletivo!
Todos sabem que beber e dirigir é um ato perigoso. Por que precisamos de uma lei nova para algo tão conhecido? Para vivermos em sociedade. Uma lei impõe uma mudança de comportamento e oferece contenção para alguns impulsos destrutivos.
A chamada “Lei Seca” do transito, não proíbe o uso de bebida alcoólica, mas sim impõe um uso contextualizado e uma reorganização de antigos esquemas. São necessários novos arranjos como: deixar o carro em casa, sair em grupos, rodiziar o volante entre os amigos, usar o transporte público, esperar algumas horas depois de beber para dirigir, enfim, opções existem. Será que podemos sair do foco do que “eu” estou perdendo para o que “nós” estamos ganhando?
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