"PREVENÇÃO EM ESCOLAS: DO IDEAL AO POSSÍVEL“

Luciana Slaviero Pinheiro Cerdeira,
Mônica Lazzarini Ferreira Valente

O QUE É O PERCEPTO?

O Percepto – Programa Personalizado de Prevenção foi idealizado a partir do trabalho realizado com dependentes de álcool e outras drogas, onde se percebeu a importância de uma ação preventiva em momentos de maior vulnerabilidade na vida. Um dos focos do programa é a adolescência por ser considerado um período de  vulnerabilidade tanto para o adolescente quanto para a família.

A ESCOLA COMO LUGAR PARA O DESENVOLVIMENTO DE AÇÕES PREVENTIVAS

A Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO) aponta a escola como o local mais adequado para o desenvolvimento de ações preventivas voltadas à melhoria da qualidade de vida, especialmente ações voltadas para a prevenção ao uso, abuso e dependência de álcool e outras drogas. 

Neste sentido, o lugar onde consideramos que uma ação preventiva com adolescentes possa ser efetivada, atingindo o próprio adolescente, a família e o educador, é a escola.

QUESTÕES DA ADOLESCÊNCIA

  •  Transição da infância perdida para a maturidade não atingida - 10 aos 19 anos (OMS) e do lugar na família para um lugar no mundo exterior.
  •  Jovens mais vulneráveis, confusos, zangados, melancólicos, ansiosos e sozinhos x momentos de grande excitação e onipotência.
  •  As rápidas e intensas mudanças no corpo e o desabrochar da sexualidade ocorrem independente de sua vontade, o que pode ser muito angustiante em um momento em que a preocupação central do adolescente é a sua identidade: “Quem sou eu?”.
  •  Forte tendência em agrupar-se em pares onde sentem-se menos expostos às criticas dos pais, reassegurando a auto-estima através da imagem que os outros lhe remetem. Discriminam-se, assim, dos adultos, confiando mais nos valores dos seus amigos.
  • Na busca de uma identidade própria, o jovem quer ao mesmo tempo ser aceito pelo grupo e afirmar-se frente aos pais e educadores que estão sobrecarregados de suas próprias expectativas em relação ao jovem.
  • O medo da solidão, de não ser social, física e sexualmente adequado, de ser excluído do grupo e o desejo de livrar-se da inibição e provocar uma sensação artificial de bem estar, podem levar o jovem a apoiar-se em subterfúgios como as bebidas alcoólicas e outras drogas, ou então, o consumo indiscriminado, em uma fase em que desafiar as regras sociais, ficar “bêbado”, “muito louco” ou possuir determinados bens materiais é “legal”, aceito e valorizado pelo grupo.
  • Esses subterfúgios podem ser soluções rápidas para evitar a dor, os conflitos, os problemas árduos e os aspectos desagradáveis e imperfeitos da vida, através da fantasia de ter um controle maior sobre o mundo.

QUESTÕES DA CONTEMPORANEIDADE E O LUGAR DA FAMÍLIA E DA ESCOLA

  • Cultura da não frustração, do não contato, da não significação, da primazia do prazer x realidade, das drogas que tudo curam, da estética da perfeição e da busca de uma felicidade plena.
  • O excessivo não é tolerado e não encontra espaços para ser falado, representado ou contido.
  •  A dor, a insegurança e a sensação de vazio se fazem presentes, muitas vezes, através de atos agressivos voltados para si ou para o outro.
  • Pais sentem-se despreparados e ansiosos com as questões vividas pelos filhos e tendem a transferir para a escola e, em especial para os professores, a responsabilidade e a tarefa de orientá-los, porém, com a demanda de que a escola os atenda em todas as suas necessidades.
  •  “Na cultura do individualismo e do narcisismo, os filhos são a esperança dos pais de imortalidade e de perfeição” (KEHL, 2001, p. 37).
  • Sem a possibilidade de incluir falhas, faltas, privações e frustrações, os pais dificultam a inserção da criança no coletivo e a empatia com o próximo, aumentando as possibilidades de que seus filhos se constituam como pequenos tiranos, demandantes de direitos e descompromissados de deveres.
  • Este contexto enfraquece a escola na sua importante função paterna de autoridade que interdita e ao mesmo tempo insere o sujeito na cultura, nas regras, nas leis, no coletivo e no mundo em sociedade.
  •  A desautorização das figuras parentais e da escola, a evitação de conflitos e o atendimento de todas as necessidades dos filhos, retro-alimentam um modelo de frágil estruturação do “Eu”, uma vez que os adolescentes não desenvolvem sua autonomia e responsabilidade, tornando-se adultos fragilizados, inconsistentes e dependentes.
  • A ausência de adultos mediadores acentua questões e conflitos típicos dos jovens, deixando-os numa posição de ainda maior vulnerabilidade e abandono, num período de grande turbulência onde ocorrem escolhas importantes quanto à sexualidade, paixões, carreiras, amigos e drogas.

A IMPORTÂNCIA DO ADULTO MEDIADOR NA ADOLESCÊNCIA
 
É importante que o jovem encontre na figura dos pais e educadores, mediadores capazes de auxiliá-lo na organização de seus recursos internos para que possa lidar de forma mais criativa e potente com seus conflitos. O adolescente deposita no adulto a esperança de que este possa auxiliá-lo a traduzir em palavras o que ele encena com atos. Através dos atos, o jovem busca, no olhar do outro, uma compreensão e um sentido que carrega em si mas que não consegue desvelar sozinho.

PERCEPTO - PROGRAMA PERSONALIZADO DE PREVENÇÃO

OBJETIVOS
O programa do Percepto vai além da temática das drogas, abordando as questões referentes à adolescência de maneira ampliada e possibilitando que educadores e pais possam ocupar o lugar de mediadores e interlocutores junto ao adolescente ajudando-o a:

  • problematizar e significar suas experiências;
  • posicionar-se de forma mais crítica e consciente frente às questões conflituosas da vida e da própria adolescência.

METODOLOGIA
O Percepto Programa Personalizado de Prevenção contempla cinco eixos estratégicos: 1) Mapeamento e Diagnóstico Institucional; 2) Grupos de reflexão com educadores, pais e alunos; 3) Reuniões periódicas com coordenação e educadores; 4) Avaliação permanente e 5) Devolutiva.

DO IDEAL AO POSSÍVEL
Junto com pais, educadores e alunos, propomos uma trajetória que vai do ideal ao possível. Um possível que inclui acertos e erros inerentes à imperfeição e falibilidade do ser humano, e que resgata um lugar de saber dos adultos, onde são assumidos os riscos e as responsabilidades de educar uma criança e prepará-la para a vida, acreditando que o adolescente pode desenvolver-se como um sujeito crítico e autônomo.

Contatos: luciana@percepto.com.br
                 monica@percepto.com.br


     
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