Vínculo com a Vida
“algo que te puxe para você não se perder”

          É pública e notória a idéia de que quando gostamos do que estamos fazendo nos dedicamos mais, investimos mais tempo e energia e nos é menos custoso solucionar problemas e dificuldades.
          Embora o viver em sociedade inclua uma série de negociações com os desejos e prazeres pessoais, é fundamental que na adolescência o jovem possa fazer escolhas que verdadeiramente vão de encontro ao seu “self”, ou seja, a quem ele É. Sem isto, sua capacidade criativa pode se tornar compactada levando-o a sentir-se esvaziado de espontaneidade e a um viver robotizado. O sentimento de inutilidade pode se fazer presente, uma vez que o mundo é sentido apenas como algo a que se ajustar e se adaptar. Isto poderá repercutir em sua vida pessoal, afetiva e profissional
          É somente sendo criativo que o indivíduo descobre-se a si mesmo. O viver criativo, autêntico, traz um colorido em relação à vida, uma sensação de estar vivo, e não apenas de sobreviver. Traz a sensação de que “a vida é digna de ser vivida”, conforme nos ensina o psicanalista inglês Winnicott.
          Paradoxalmente, o encontro com quem você é não é solitário pois inclui o outro, inclui um relacionar-se com o mundo e consigo mesmo, inclui a articulação entre o desejo pessoal e o desejo do outro e entre o prazer e a realidade.
          O adolescente, em processo de amadurecimento e sedimentação da própria identidade, sente-se muitas vezes inseguro e vulnerável por se deparar com uma questão fundamental: “Quem sou eu?”
          A construção da identidade se dá desde a infância, ou melhor, desde o nascimento. Somos atravessados pelo desejo de nossos pais, que é fundamental e vai nos constituindo como sujeito e aos poucos vamos diferenciando o que é nosso e o que é do outro. Esta é uma construção que tem muitos entrelaçamentos e sobreposições onde as fronteiras eu e o outro são cheias de nuances.
          O processo de auto-conhecimento é trabalhoso e muitas vezes angustiante, o que pode levar o jovem a tentar encurtá-lo ou acelerá-lo através de “substâncias mágicas”ou outros subterfúgios.
          Neste contexto, a escola não pode perder de vista a necessidade de um trabalho articulado entre a vida acadêmica e a possibilidade do desenvolvimento de um “Projeto de Vida” junto ao adolescente.
          Embora exista atualmente uma preocupação em garantir que a formação dos jovens os capacite a entrar nas “melhores universidades do país” frente a um suposto aumento da concorrência no mercado de trabalho, há um processo importantíssimo anterior e concomitante a preparação intelectual do jovem: a construção do “Projeto de Vida”, que tem início neste momento e dura uma vida toda, passando por re-significações e fornecendo uma base, um fio condutor, um caminho, uma direção.
          Envolve um olhar para si mesmo e um questionar-se o tempo todo. Como eu sou? Objetivo?  Perceptivo? Extrovertido? Introvertido? Gosto de estar em grupo? Sozinho? Viajar? Ler? Fazer cursos? Com o que ou quem eu me identifico? Quais as minhas áreas de interesse e preferência? Que atividades me motivam, me satisfazem? Qual a minha maneira de ser e estar no mundo?
          É um processo complexo e envolve diversos fatores. Além do auto-conhecimento, de estabelecer um objetivo que dê um sentido a vida e de pertencer a grupos de interesse (esportes, música, literatura, cinema, artes, fotografia, etc.), é especialmente importante empenhar-se na concretização e viabilização de seus sonhos e poder orgulhar-se do próprio resultado. Isto tudo não acontece sem o exercício contínuo da resiliência, tolerância à frustração e determinação.
          Tudo isto traz um vinculo com a vida e é uma excelente vacina contra a sensação de vazio, a falta de vontade de viver e o uso de drogas.
          Como diria um aluno do 3o. ano do ensino médio de uma escola particular: “é preciso algo que te puxe para você não se perder!”.

Luciana Slaviero Pinheiro Cerdeira
Psicóloga e psicanalista

luciana@percepto.com.br


     
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