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Vestibular: um ritual de passagem
O período que marca o fim do segundo grau e o início dos estudos superiores representa um momento mais importante do que possamos imaginar na vida dos jovens. Para os que estão em dia com seus estudos, o vestibular acontece em torno dos 17/18 anos. Uma idade em que dificilmente eles têm condições de ter uma idéia clara do que pretendem fazer de suas vidas.
O vestibular é um momento crítico não apenas pela dificuldade de enfrentar uma prova que avalia o conhecimento adquirido no decorrer do segundo grau, mas também porque representa o momento em que o jovem se depara com o fim definitivo da infância e com as responsabilidades da idade adulta. O que está em jogo é o seu futuro.
Sabermos o que queremos para nós mesmos costuma ser difícil em qualquer idade, mas é particularmente difícil nessa idade quando, talvez pela primeira vez, a “escolha” lança o jovem diante de suas responsabilidades em relação à sua própria existência. Ele é convidado de repente a assumir as rédeas de sua vida. Tudo isso já seria bastante difícil em um mundo normal, mas no mundo em que vivemos isto se torna ainda mais angustiante. Os mitos da performance, do sucesso, da ostentação, do glamour, aliados à sensação de estar envolvidos em um ambiente altamente competitivo, embaçam o horizonte.
Para complicar ainda mais as coisas, este é também o momento em que os pais projetam com maior intensidade seus projetos sobre os filhos. Desde que o filho nasce, os pais alimentam algum tipo de “sonho” com relação ao seu futuro, em alguns casos com os contornos bem delineados. Se assim for, não resta ao jovem muita escolha, seu caminho já foi delineado: ser médico, advogado ou administrador de empresa como o pai, para dar continuidade aos seus negócios e aos seus sonhos, ou então dentista, veterinária ou professora como a mãe. Embora esta situação alivie as ansiedades do jovem, retirando dele o peso da escolha, é, na realidade, a pior situação possível.
Para ajudar os filhos é importante que os pais neste momento saibam “se retirar”, deixando o filho a sós com seus próprios sonhos, incentivando-o para que os sonhe á vontade. Se ele não quiser conversar sobre o assunto, é bom esperar o momento oportuno, quando ele mesmo demonstrar interesse em fazê-lo. Em alguns casos, as escolas oferecem algum tipo de orientação sobre profissões e os jovens trocam informações entre si.
Da mesma forma, é o momento em que o jovem se depara com suas responsabilidades: ele deve de fato dar conta de uma série de pequenas tarefas acompanhando a agenda prevista para cada uma delas: inscrição na prova do Enem, inscrição no vestibular e/ou inscrição em algum cursinho. A melhor coisa é que o jovem se organize sozinho. Geralmente eles gostam de fazer isto se juntando aos colegas mais próximos. O ideal é que os pais acompanhem a uma prudente distância, perguntando de vez em quando se tudo está correndo bem.
Da mesma forma, de nada adianta pressionar com a preparação do vestibular neste momento. Se o jovem não adquiriu um hábito de estudo de nada adiantará pressioná-lo. Também é muito importante não pressioná-lo quanto ao resultado do vestibular. Mostre que se não passar o mundo não vai acabar. Poderá fazer um cursinho, ter um tempo a mais para fazer suas escolhas e fixar melhor seus conhecimentos.
Desta forma, o vestibular se torna uma espécie de ritual de passagem, em que os jovens vão começando a assumir a responsabilidade de suas vidas, aprendendo a organizar seu tempo, articulando estudo e momentos de lazer. Quanto aos pais, o desafio é conter sua ansiedade, tentando “se separar” dos filhos para que possam habitar seu próprio mundo que, com certeza, terá muitos elementos retirados do mundo dos pais, mas que terá também características absolutamente originais.
Roberto Girola
Psicanalista e autor do livro “A Psicanálise Cura? – Uma introdução à teoria psicanalítica” - Ed. Idéias e Letras.
Artigo publicado no Jornal Santuário
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